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Tiros, "tacos" e táticas fazem manhã de treino para milícia cristã norte-americana

Tiros, "tacos" e táticas fazem manhã de treino para milícia cristã norte-americana

Uma manhã de treino para os membros da milícia Patriots for America no Texas significa tiros, "tacos" e táticas militares básicas com que se preparam para missões como as patrulhas na fronteira com o México.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: Rick Wilking - Reuters

São oito da manhã e já se ouvem tiros de pistola e espingardas de assalto nos vários nichos de uma carreira de tiro ao ar livre perto de Trenton, no nordeste do Texas, a cerca de 90 quilómetros de Dallas.

Os nove membros dos Patriots for America- sete homens, duas mulheres - chegam bem-dispostos e descarregam o material: espingardas automáticas, pistolas, `shotguns`, caixas de munições e coletes à prova de bala para todos, onde ressaltam as iniciais da milícia PFA.

Criada em 2015, a organização é liderada por Samuel Hall, "nascido no Texas", que define o grupo como uma missão religiosa.

Ganharam visibilidade em 2021, quando o sul do Estado viveu uma crise migratória na fronteira com o México e decidiram fazer patrulhas onde a guarda de fronteira e a Guarda Nacional norte-americana não chegavam.

Acusados de "supremacia branca" e de quererem suplantar-se às autoridades legítimas por grupos de direitos civis, continuam a sua atividade em vários Estados norte-americanos e afirmam que a sua missão é combater o tráfico de pessoas, sobretudo crianças.

Para Alyisia Bullock, que foi candidata pelo Partido Republicano à Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de 2022, mas que perdeu, é o primeiro dia de treino com armas de fogo. Tem 53 anos, mas não aparenta mais de 30.

É técnica médica de emergência e disse à Lusa que, enquanto candidata, se comprometeu a ir à fronteira, mas não queria apenas "vestir um colete e tirar uma fotografia".

A experiência, afirma, foi "muito emocionante": nas "operações noturnas" da milícia, encontraram por diversas vezes migrantes a passar a fronteira pelo Rio Grande. Como técnica médica ajudou "a tirá-los da água e examiná-los", enquanto os outros membros da milícia armada procuravam identificar sinais de tráfico humano, sobretudo quando encontravam crianças.

"Vamos divertir-nos", desafia Samuel, propondo uma progressão no terreno em que um par de milicianos vai costas com costas, cada um disparando a pistola enquanto atrás de si, o colega recarrega e toma depois o lugar dianteiro.

Como há principiantes, no primeiro exercício não há fogo real, apenas "bang! bang!" a simular o som dos disparos.

No ensaio, verificam que não é assim tão simples, porque o chão é de gravilha e facilmente se escorrega.

Pistolas primeiro, espingardas de assalto depois. O dono da carreira de tiro estabelece as regras, que incluem a obrigação de não apontar as armas demasiado alto, para não correrem o risco de atingir alguma casa vizinha, nem demasiado baixo, para evitar ricochetes.

Qualquer erro pode matar alguém e mesmo que não mate, o preço de ficar ferido é caro. Por perto, não há sítios capazes de tratar ferimentos de bala, pelo que terão de ser levados de helicóptero para um hospital e a conta desse serviço pode chegar aos 30 mil dólares.

Alysia e o colega com que fez par, também principiante, saem-se melhor que alguns veteranos da milícia e recolhem aplausos do grupo.

Quando as pistolas são carregadas e se desliga a patilha de segurança, o assunto é mais sério.

David Munson, um texano alto, corado e com um boné vermelho onde se lê "Texas de novo independente", está ali para garantir que ninguém se magoa e toda a gente trata as armas sem risco de se ferir a si ou aos outros.

"Estive no Exército durante dez anos. Fui oficial de artilharia de campo e carros de combate, mas alistei-me na infantaria, por isso tenho muito tempo de carreira de tiro", conta à Lusa.

O que procura ensinar aos colegas é "mesmo o básico, porque muitas pessoas não têm experiência militar".

A tática que treinam hoje é o que se usaria para abordar um edifício ou percorrer um corredor. Mais para a frente, ensinará como avançar em grupos até cinco pessoas, que foi o que usaram quando estiveram na fronteira.

"Foi muito diferente do que se via nas notícias", recorda, destacando que as autoridades encarregadas de proteger a fronteira não estavam a agir.

"Víamos dois soldados da Guarda Nacional num [veículo blindado] Humvee num parque de estacionamento, mas limitavam-se a ficar lá. À guarda da fronteira, só víamos quando os chamávamos e lhes dizíamos que havia pessoas para recolher", lembra, assinalando que "o sofrimento humano das pessoas que chegavam" era notório.

"Passámos lá uma semana. Vimos idosos, crianças muito novas a chegar pelo rio, sem identificação, sem nada. Viam-se no chão pilhas e pilhas de roupa que as pessoas tiravam e trocavam por roupa seca" que tinha sido deixada em sacos pendurados em árvores por pessoas que já estavam nos Estados Unidos.

Por agora, David, que viu as imagens da fronteira em 2022 e sentiu que "como texano, tinha que ir", tenta "manter toda a gente segura, porque as coisas podem mudar muito depressa e um passo em falso pode resultar num ferimento muito sério" ou pior.

David, que foi gerente de infraestruturas tecnológicas, vive no leste do Texas e afirma que encontrou nos Patriots for America um "grupo que respeita a lei e ao mesmo tempo não deixa de exercer os seus direitos".

Alycia reconhece que todos são "cristãos fervorosos" e não tem medo de morrer, o que a levou à Ucrânia para ajudar os esforços dos ucranianos a repelir a invasão russa.

Na altura, juntou-se a uma força médica internacional, a Task Force Yankee, e lá conheceu o atual marido, com quem esteve à beira da morte quando em Kharkiv, uma bomba explodiu demasiado perto.

"Estava a jogar Candy Crush num telefone e a ouvir um salmo no outro. Não tive medo de morrer, porque já sei para onde vou se chegar o dia. Mas pensei: `isto não é a minha guerra nem o meu país", afirma.

Os Patriots for America trocam as pistolas por espingardas automáticas e as rajadas ecoam pela carreira de tiro. Os alvos de papel e cartão vão-se desfazendo, trespassados por dezenas de balas, enquanto outros tiros ressoam ao atingir um alvo de aço.

O chão enche-se de cartuchos vazios até que é hora de pausa. "Alguém quer um taco?", pergunta um dos Patriots, abrindo a caixa que trouxeram cheia logo de manhã.

É mais um dia no Texas e os vizinhos da carreira de tiro não se queixaram do barulho. Mesmo que se queixassem, seria difícil fazerem-se ouvir.  

 

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